Organizando as minhas memórias, aqui segue uma espécie de crónica...
Levantar antes do galo cantar, ao fim-de-semana... Ou se é doido, ou se é padeiro.
Amanheceu (ou melhor madrugou) com tempo seco, mas com o pavimento bem molhado da chuvada da noite anterior.
Ainda tudo às escuras e sem vivalma na rua, meti a chave na ignição e fiz-me ao caminho.
A um quarto para as sete, estava a chegar ao ponto de encontro onde já se encontrava o Rui.
Logo ali, informou-me que Ricardo vinha com o Lino, que iria seguir directo do emprego para Cáceres.
Aproveitei para corrigir o ar aos pneus, e que correcção. Algum engraçado tinha trocado a mangueira e dei por mim a meter 6.6 em cada roda...
Felizmente que dei com o mau esquema a tempo e foi reposta a normalidade.
Eram cerca de 7h30 quando as duas Stroms brancas chegavam, e nem deu para cortar a ignição, seguimos logo para a estrada com algum receio que a ponte já estivesse fechada.
Felizmente não estava. Pelo menos no sentido em que seguíamos. A coisa estava a correr bem, e já tínhamos conseguido fintar a segurança.
Saindo da ponte, enveredámos logo por nacionais, seguindo sempre por estas até Montemor, onde se impunha a primeira paragem no famoso Pic-Nic para cafés e bolinhos, que a estrada seria ainda longa.

Depois da bucha, regressámos ao asfalto que continuava bem molhado, obrigando a cautela redobrada.
E lá fomos os quatro, em ritmo descontraído de passeio. O Rui à frente, as "branquinhas" no meio e eu como cerra-filas.
O dia estava melhor de hora para hora, e já à chegada de Elvas, raiava o Sol no ar.
Aí chegados fizemos outra paragem bem junto à muralha, para esticar a pernoca e dar descanso aos traseiros.

Aproveitei para bater umas chapas de um lindíssimo pomar junto à muralha.


E ala que se faz tarde... Rumo a Espanha, com chegada prevista às 13h espanholas.
E que bonito percurso se estendeu à nossa frente, depois de termos atravessado a fronteira (no sentido inverso, pudemos ver a GNR a desviar o trânsito da AE para a nacional, para fiscalização).
Geralmente estes trajectos por terra de "nuestros hermanos" são enfadonhos. Mas este ao contrário, proporcionou-nos algumas poucas mas boas curvas e uma excelente paisagem variada.
E finalmente Cáceres... O pessoal ia com fome, e estava pensado tratarmos do tacho antes de fazer a visita.
Desta vez, tínhamos a lição estudada e o GPS do Rui levou-nos directamente ao restaurante Pasadena na zona nova, bem referenciado e de preço moderado, totalmente inspirado nas melhores steakhouses americanas.
Mas claro, este pessoal come tarde e dorme muito. De modo que a casa ainda estava encerrada com abertura marcada para as 14h.
Resolvemos então antecipar a visita e guardar a bucha para depois.
O acesso ao centro de Cáceres é confuso, muita gente e muito carro por todo lado. Fora do centro histórico, a cidade está alinhada com a arquitectura habitual dos espanhóis.
Prédios com aspecto de dormitório, forrados a tijolo... Nada de especial. Depois de fintar a confusão, lá descobrimos um canto reservado para deixar as montadas, e seguir a pé, à descoberta da parte velha da cidade.
E aí tudo muda que até faz impressão. Parece que andamos pelo meio de uma grande cidade da idade média. Os prédios forrados a rocha são imensos, e vão aparecendo encadeados uns nos outros em becos e ruelas.




Volta não volta, ergue-se à nossa frente um igreja monumental, um palacete, ou ainda, uma torre medieval... Depois de andar por aquelas ruas e assistir a todo aquele legado, percebe-se facilmente o porquê deste
lugar ter sido classificado como cidade de património mundial. É preciso estar atento a todos os brasões, gárgulas e outros pormenores góticos que predominam nos edifícios, um verdadeiro regalo histórico e arquitectónico.
Igreja de São Francisco de Xavier.



Quando seguíamos em direcção à Igreja de Santa Maria por uma ruela estreia, eis que surge atrás de nós o senhor prior na sua "lambreta" (visível nas fotos abaixo)... Muito cómico.
Uma curiosidade. Na esquina da igreja, encontra-se uma estátua de São Pedro de Alcântara, em que diz o povo, dá boa sorte a quem lhe tocar os pés.


Os quatro padeiros junto à Igreja de Santa Maria.

O dia estava bom, e a luminosidade perfeita com o Sol bem pendurado no céu.





Finalmente, depois de caminhar um bom bocado no meio de todos aquelas ruas históricas, regressámos às motas para seguir para o almoço.
Para isso tivemos que sair do centro, e regressar a um dos extremos da cidade, onde se encontrava o restaurante.
Bem bom o tacho, para quem como nós, espreita de lado a culinária espanhola abundante em óleo vegetal.

Aqui tudo é à americana. Desde a decoração ao menu. E no menu, havia um pouco de tudo. Hambúrgueres, pizzas, chili, tacos e outras
petiscos mexicanos, assim como alguma opções regionais. O pessoal da casa, muito simpático, o serviço é que foi demorado, mas não
estávamos com pressa, e uma entrada em forma de um monte de batata frita americana com molhos para todos os gostos, ajudou a
esperar pelos pratos principais, que estavam optimamente confeccionados.


Felizmente chegámos cedo, porque a casa encheu num instante, e corríamos o risco de ter de tirar bilhete.
A conta ficou em 15€ cada, um preço perfeito e adequado às nossas bolsas.
Finalmente estava na hora de regressa ao nosso belo país, a salto, como nos propúnhamos, fugindo ao suposto controlo de fronteira.
O ponto da passagem clandestina estava marcado no GPS do Rui, sendo que seria o bastante seguir a rota.
Mas antes, uma paragem estratégica para atestar os depósitos até aos gargalos, que a este preço até dá gosto.

O Rui tinha o plano estudado e depois de alguma investigação, conseguiu descobrir uma ponte sobre um ribeirozito que faz fronteira.
Muito curioso, dado o facto de que, o ribeiro para além de separar os dois países, separa também duas aldeias. A aldeia portuguesa do Marco e a espanhola de El Marco.
A estrada até El Marco foi provavelmente umas das melhores que fiz por Espanha (tirando o parque dos Picos da Europa, claro).
Uma paisagem idílica que nos acompanhou até aos limites do território espanhol.
Chegados à aldeia seguimos mais ou menos a direito pela rua principal que se encontrava cortada mais adiante, o que nos obrigou a fazer um desvio forçado para um beco sem saída.
Desmontámos e seguimos a pé até ao fim da rua completamente revolvida. E demos com a tal ponte pedonal, sobre o tal ribeiro, onde passava em tempo a rota de contrabando.
A pontezita de madeira seria totalmente transponível de mota, não fosse estes 30 ou 40m de estrada completamente destruída sem alternativa de contornar.

Tivemos mesmo que nos resignar à travessia comum viária e sujeitar-nos ao controlo que por lá houvesse... E havia.
Regressando uns 500mts atrás, virámos para a única estrada por aqui que dá acesso a Portugal. E lá estava uma patrulha da GNR que nos fez logo sinal para parar.
Ao Rui foram-lhe logo pedidos os documentos pessoais, mas rapidamente encetámos uma conversa amigável com os dois agentes, que dispensaram a apresentação de mais documentos
e nos mandaram seguir em direcção a casa.
Já na nossa terra, estava previsto o regresso por Sousel, seguido de Coruche. A noite já estava posta, os joelhos já estavam perros, e os rabos quadrados.
Estávamos a precisar de parar um bocadinho e beber qualquer coisa. À entrada de Sousel, na faixa contrária, demos com um automobilista sem automóvel, com sérias dificuldades em guiar
a direito... Estava perdido de bêbado o homem!
No centro de Sousel, estava difícil arranjar um boteco aberto, e parámos logo no primeiro que nos pareceu de serviço. À porta estava um simpático rapaz da terra que veio logo ter connosco
para dar-nos as boas vindas. Tinha uma igual, dizia ele... Uma Strom... A mota é mesmo popular!
Convidou-nos a entrar, informando-nos que o espaço não estava aberto ao público (era uma associação local, os Souselense), mas que estava aberto para nós.
E que simpatia, lá dentro, muitos associados em alegre convívio. Conversámos um pouco com o nosso anfitrião e com o presidente da associação, um tipo novo, que nos propôs organizar
uma petiscada por ali, quando nos apetecesse. Por ali só havia, café, minis (a 0.55€ cada!) e médias... E era o bastante para fazermos uma pausa e enfrentar o resto do caminho.
Beijinhos e abraços, e regresso à estrada, que seria feito por Vendas Novas. A noite já estava posta, pelo que o cenário já não era importante. Importante mesmo seriam as bifanas do Café Boavista.
Sempre alinhados, em ritmo tranquilo, sem incidentes (tirando um morcego que o André abalroou) chegávamos a Vendas Novas para aconchegar o estômago.

E depois, mais um quilómetros até casa... Eram perto das 22h quando desliguei a Strom, com mais de 700kms no contador. Ao todo devem ter sido uns 660kms que fizemos juntos, num dia memorávelmente bem passado,
como felizmente não é invulgar acontecer com esta malta.
Para mim, foi a primeira vez que pude rolar com o Ricardo e o André... Em boa hora me lembrei de dar o toque ao Ricardo para o puxar para aqui. Tanto um como outro têm o espírito que prevalece nesta casa
companheirismo e vontade de fazer muitos quilómetros... E convém dizer que em pouco tempo, já têm amealhado uma invejosa quilometragem em passeios...
Uma boa aquisição. Sangue novo que vem em óptimo tempo, reforçar os bons elementos deste grupo.
Ainda uma referência especial ao André, que fez literalmente uma directa para se juntar a nós... Se isto não é espírito de padeiro, não sei o que seja!
Cumps!